sábado, 26 de setembro de 2015

Eternas matinês (1) - Jerry Lewis

Elisa Kopplin Ferraretto

Em um distante domingo à tarde, minha mãe me convidou para assistirmos, na TV, a um filme com um ator de quem ela gostava muito. Foi assim que, em meio a muitas risadas, conheci Jerry Lewis. Desde então, vi e revi muitas vezes algumas das tantas histórias ternas e divertidas que ele estrelou, principalmente aquelas que, nos anos 1970 e 1980,  repetiam a toda hora em alguma Sessão Comédia na TV.
Uma das cenas mais famosas está em “Errado pra cachorro”: a da máquina de escrever invisível. Agitando as mãos no ar,  Jerry Lewis imita os movimentos de quem está batendo à máquina de escrever – datilografa, empurra o rolo de um lado para outro,  aciona a alavanca de mudança de linha. Tudo isto, acompanhado de uma perfeita sonoplastia,  cria a ilusão de que ali realmente existe uma máquina.


Não dá para esquecer de Jerome Littlefield, o atrapalhado e hipocondríaco atendente de uma clínica em “O bagunceiro arrumadinho”. Uma das melhores cenas é aquela em que uma paciente vai exagerando seus problemas de saúde e Jerome começa a sentir todas as dores que ela está descrevendo.


Genial também a performance de Jerry na pele de Clayton Pool, em "Bancando a ama seca".



Em "O meninão",  ele é Wilbur,  que,  disfarçado de criança, se esconde, em uma escola para moças, de uma gangue de criminosos.  Como não rir daquele homem desengonçado que bagunça uma reunião da direção da escola em uma roupinha de marinheiro? Ou da cena em que "ajuda" o professor Bob (Dean Martin) a coreografar um grupo de meninas?


Mas meu preferido é  "Artistas e modelos",  em que o sonâmbulo Eugene Fullstack sonha com as histórias de Vincent,  o Abutre.



E para fechar,  não dá para esquecer dessa cena de "Qual o caminho para guerra?".  Uma aula de alemão imperdível!!!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Figurinha difícil (1) - O álbum da Copa de 1970

Luiz Artur Ferraretto


Colecionar álbuns de figurinha era um dos passatempos de quem, como eu ou o meu irmão, cresceu na segunda metade do século 20. Na época, a gente comprava os envelopes aos poucos, aproveitando alguma sobra de dinheiro destinado à merenda ou para alguma ida ao cinema. Por uma espécie de tradição familiar, em 1970, como minhas tias haviam feito com ele, o Dena foi colecionando este álbum para nós dois. É o da Copa do Mundo daquele ano, a do México, a do tricampeonato ganho pelo Brasil. Eu tinha quatro anos e lembro apenas da minha família correndo até a frente da casa, na rua Francisco Marques, em Rio Grande, a cada gol da seleção.
No verso da capa do álbum, com letra cuidada e com o mesmo esmero dedicado a colar as figurinhas apenas pela parte de cima, meu irmão anotou resultado a resultado, não esquecendo de indicar os nomes dos donos do álbum e que o Brasil sagrava-se tricampeão.


Este negócio de colar a figurinha pela parte de cima era uma herança dos tempos em que se usava grude, embora, em 1970, um comercial de televisão já anunciasse: "Cole com Tenaz e descole se for capaz".


Quem foi guria ou guri nestes tempos também vai recordar a enorme dificuldade para se completar um álbum de figurinhas, ainda mais no caso dos que, como o Dena e eu, moravam bem longe dos principais centros urbanos do país. Era frequente solicitar os cromos faltantes e nunca recebê-los. De fato, a gente nem tentava fazer isto. Dependia da troca de figurinhas com amigos e colegas. Na impossibilidade total de completar um álbum, recorria-se a pequenos "dribles" como colar cromos repetidos, fingindo fechar algumas páginas.



Para a gente, importava mesmo o divertimento em si. E, no caso do álbum e da Copa de 1970, o tri brasileiro. Afinal, pelo menos, as páginas da seleção campeã estavam completas, embora se comentasse que a do Pelé era a figurinha mais difícil do álbum.



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Um robô pra chamar de meu (1)

Elisa Kopplin Ferraretto


Muita gente que foi criança nos anos 1960 e 1970 alimentava um desejo secreto: ter  um robô como seu melhor amigo. Igualzinho ao Will Robinson da série "Perdidos no Espaço", com o modelo B9, conhecido simplesmente como Robô. Inteligente, divertido, sensível às vezes, sarcástico em outras, quase humano. Mas com uma força e um arsenal de truques que nenhuma pessoa poderia oferecer.
Naquela época, a gente fazia folia na rua sem medo de assaltante nem de traficante. Mas,  na nossa imaginação,  sempre havia o risco de, enquanto se brincava de roda,  de pegar,  de esconder,  de passar anel,  de fita etc.,  surgir um alienígena horrendo,  um monstro de oito olhos,  um gigante ou  horror dos horrores!  o Homem do Saco,  pronto a enfiar dentro daquele trapo sujo as crianças arteiras.  Então, ah, se a gente tivesse um robô para nos proteger!!!  Ele avisaria: "Perigo, perigo", de suas "mãos" sairiam raios e nós, ilesos, ficaríamos cheios de orgulho por termos um amigo tão especial... Sonho nunca concretizado,  mas sempre lembrado pela  miniatura que nos espia das estantes...


O Robô foi criado por Robert Kinoshita. Anos antes, de sua imaginação também  saíra o Robby, do filme Planeta Proibido.  Na foto,  o velhinho (que morreu em janeiro deste ano,  aos 100 anos) com nossos dois amigos inesquecíveis.


Faz um tempo enorme que não sou mais criança,  mas,  como não se confirmaram as previsões do passado,  de que no longínquo ano 2000 todos teriam seu robô pessoal, eu sigo sonhando com o meu. Afinal,  amigos de verdade são cada vez mais raros,  e uma proteção extra nestes tempos difíceis viria bem.  Pena que o medo de hoje não seja mais imaginário,  não seja mais do alienígena esquisito,  do monstro de mentirinha, do Homem do Saco...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Toca Raul! Alguns vídeos sobre o Maluco Beleza

Luiz Artur Ferraretto

A qualquer momento em algum bar, alguém vai pedir: "Toca Raul!". Aqui em casa, é ligar o aparelho de som e sempre há um momento para o Maluco Beleza. Como áudio não existe sem vídeo, aproveitamos para rever alguns DVDs produzidos por fã-clubes do Raul com clipes. Respeitosamente, em agosto de cada ano, próximo ao dia em que o maior roqueiro da história do Brasil subiu para outro firmamento, assistimos a estes trechos de telejornais gravados em velhas fitas VHS que, com o tempo, fomos digitalizando. Do dia 21 de agosto, as reportagens dos programas "Cidade 5", do SBT de Porto Alegre; "TJ Brasil", do SBT em rede nacional; e do "Jornal Nacional", da Globo.



 
Do dia seguinte ao falecimento do Raul, a cobertura do "Jornal da Band" e do "Jornal Nacional".

 


E uma observação importante: não pretendemos, com a divulgação destes vídeos, todos gravados há duas décadas, desrespeitar direitos autorais. Estão aqui apenas como uma homenagem a Raul Seixas e a todos nós, os seus fãs.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Compactos: em pouco espaço, muitas lembranças

Elisa Kopplin Ferraretto

Às vezes, o preço de um Long Play de vinil pesava muito no orçamento. Em outras, o que a gente queria mesmo era ter apenas uma ou duas canções extraídas do LP, aquelas que as rádios selecionavam como músicas de trabalho e tocavam até a exaustão, mas sempre era bom exaurir um pouquinho mais... Então se podia contar com os bons e velhos compactos, geralmente com uma faixa de cada lado, no máximo duas. Não tinham os belos encartes com letras que a gente encontrava nos LPs, e as capas na maioria das vezes eram apenas um envelope "furado no meio". Mas como quebravam o galho!

Esta caixinha guarda os preciosos compactos que eu e o Luiz amealhamos, separadamente, em nossas juventudes, e depois juntamos, acrescentando mais umas coisinhas que compramos, juntos, em sebões ou no Brique da Redenção.


O que tem aí dentro? De tudo um pouco. A começar pelos infantis. A coleção Disquinho, que trazia maravilhosas narrações dos desenhos e filmes da Disney. As divertidas canções do palhaço Carequinha. Ou o meu inesquecível "A formiguinha e a neve", que não sei como não gastou, de tanto que o ouvi. O que me interessava não era a moral religiosa do final, quando "Deus, que houve todas as preces" salvava a pobre formiguinha que tivera um pé soterrado na neve, mas sim o jogo de palavras e de memória até chegar lá. A protagonista ia pedindo ajuda, sucessivamente, a diferentes personagens. Primeiro ao Sol: "Ó Sol, tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho", mas cada um respondia que havia alguém mais forte que ele. O Sol, por exemplo: "Mais forte do que eu é o muro que me tapa". E então a formiguinha ia repetindo, somando toda a ladainha: "Ó homem, tu que és tão forte, que bates no cão que persegue o gato que come o rato que rói o muro que tapa o sol que derrete a neve, desprende meu pezinho... ". Ou algo assim, pois escrevo de memória; não quero correr o risco de ouvir o disquinho e, aos 47 anos, chorar (mais uma vez) pela sorte da pobre formiguinha...




E tinha, claro, principalmente, a música. Alguns compactos traziam seleções das "mais mais" do momento, as mais tocadas no rádio. Nacionais e internacionais.



Também tinha curiosidades como essas aí de cima: o compacto do filme "Um dia de sol", reprisadíssimo na Sessão da Tarde da então TV Gaúcha, e  o de um grupo que nunca existiu. O tal The Paris Group era fake, mas a música "Grafitti", apresentada em um comercial de TV da Levis, fez tanto sucesso que se inventou um conjunto para lançar o disco. Bah, e a música (e o comercial também) era linda, mesmo.

 

Nos festivais de MPB, a gente podia contar que iam sair compactos com as principais concorrentes.



Bom... e me desculpem os puristas, mas a gente ouvia de tudo. E assistia ao Chacrinha na TV. Então gostava de ouvir estes "sucessos".


 

Nossa coleção tem coisas de mais qualidade, também, como esse compacto raro do Geraldo Vandré, com "Pra não dizer que não falei de flores", que temos em duas capas diferentes (meio enjambradas)...



 ...ou estes do semanário "O Pasquim"...



...ou da peça de teatro "Bailei na curva".



E quase esquecia "Toca Raul" do compacto da novela "O Rebu", trilha sonora do Maluco Beleza e do mago Paulo Coelho. 


Talvez um dos primeiros compactos que ouvi, ainda bem criança, tenha sido um destes do mexicano Pedro Infante, que pertencia aos meus pais. Os outros três comprei já quando adulta, porque, confesso: adoro música mexicana. Quanto mais aiaiaiaiai, melhor.


Também da minha mãe era essa raridade da Celly Campello. Um clássico!


E onde eu ouvia esses compactos? Na maior parte do tempo, foi na minha velha eletrola amarela Philips, cuja tampa era a caixa de som, mono, é claro. Segue comigo até hoje. E a do Luiz, só que vermelha, também está conosco. Ambas funcionam perfeitamente, obrigada.


Voltando aos anos 2010... e não é que os compactos renasceram? Como este aí, do roqueiro gaúcho Wander Wildner. Que beleza! bons tempos, os de ontem, os de hoje, os de sempre!!!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Na "Folha da Criança", o meu primeiro "trabalho" publicado em jornal

Luiz Artur Ferraretto

Pela qualidade da minha primeira incursão no jornalismo, pode-se dizer que o meu futuro na profissão seria algo, na melhor das hipóteses, próximo do zero. Em contrapartida, ninguém deve reclamar da precocidade de minha tentativa. De fato, a culpa é toda do Dena, meu irmão, incentivador dos dois desenhos garatujados em meados de 1970, quando eu nem completara ainda cinco anos. Na época, todo sábado, a "Folha da Manhã", o jornal lido lá em casa, publicava um suplemento infantil. Na edição da "Folha da Criança" de 1º de agosto de 1970, portanto, estavam lá as minhas artes com uma ajudinha do Dena, que acrescentou meu nome e teve a inteligência de identificar cada uma das imagens incluídas nos desenhos.




Pelo jeito, ele e eu gostamos da brincadeira. Assim, logo em seguida, cometi mais um desenho, que saiu em 1º de janeiro de 1971. Pensando bem, o meu trauma em relação às qualidades desta terceira obra de arte, reiterando a falta de potencial das anteriores, talvez esteja na origem do meu futuro desinteresse pelo jornalismo impresso. 


Brincadeiras à parte, a "Folha da Criança", coordenada por Nize Puchalski Teixeira, marcaria o imaginário dos meninos e meninas dos anos 1970. Muito tempo depois, eu descobriria que a minha namorada também tivera uma experiência semelhante. Pois a Elisa enviava para a Tia Nize estorinhas, desenhos e poesias. Segundo ela, "de tanto encher o saco da coitada", um dia recebeu este livrinho aí da foto. A dedicatória diz tudo sobre a importância da "Folha da Criança" e de sua equipe para a gente.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O mundo cabia em uma fita cassete

Elisa Kopplin Ferraretto

Hoje a gente carrega centenas de músicas em um pen drive ou no celular. Mas houve um tempo em que a mídia mais portátil e prática que existia era a fita cassete.


A gente podia comprar as das gravadoras, oficiais. Dava para ter toda uma discografia dos artistas preferidos adquirindo as fitas "seladas", oficiais das gravadoras, que eram lançadas paralelamente aos LPs.


Mas bom mesmo era personalizar, ter fitas que ninguém tinha.
Um jeito era gravar do rádio. Foi assim que eu e minha irmã Mônica montamos nossas primeiras fitas, quando ela ganhou um gravador e toca-fitas, acho que era National. O aparelho não existe mais, mas era bem parecido com este outro, do Luiz, que ele usou até não poder mais.


A gente ligava o rádio, de preferência na Continental, colocava o gravador perto dele e ficava esperando. Quando entrava uma música legal, era só apertar o botão vermelho do REC e o do Play e ficar bem quietinha enquanto a música era gravada. Não podia tossir, espirrar ou se mexer muito na cadeira, porque todo ruído saía na gravação. Se o cachorro latisse o pátio, então, a música estava arruinada. E às vezes quem estragava tudo era o locutor, que dava o prefixo bem no meio da canção.

Também era muito divertido gravar a voz da gente. Valia tudo: contar piadas, cantar, inventar uma radionovela e, principalmente, falar muita bobagem para depois morrer de rir escutando.
Só não valia se enganar na hora de reproduzir e apertar, sem querer, junto com o Play, o tal botão vermelho, aí desgravava tudo.

A Mônica ganhou o gravador lá nos anos 1970, e foi uma revolução nas nossas criações e brincadeiras. Mas só em meados dos anos 1980 tive acesso a uma maneira muito mais "moderna" de gravar fitas com seleções musicais. Eu estava na faculdade de Jornalismo e, além do emprego fixo, fazia uns bicos como revisora de livros para várias editoras. Entreguei um trabalho grande, ganhei um troco legal (pelo menos para os meus parâmetros de então) e fui correndo para os classificados do jornal, onde achei meu sonho de consumo, que adquiri em seguida: um 3 em 1 usado.


Foi uma festa!  Além de escutar rádio, discos e fitas, podia criar meus próprios cassetes com muito mais qualidade. Nos LPs e compactos simples, selecionava as canções de que mais gostava e gravava as fitas sem nenhuma interferência de ruídos do ambiente (os vira-latas lá fora já podiam latir à vontade).
Depois, identificava tudo numa capinha feita a mão e pronto - tinha um cassete exclusivo!


Quando comecei a namorar o Luiz, em 1989, descobri que minhas capas eram simplórias. Olhem como eram as dele!!!


Nos anos 1990, quando já era difícil encontrar fitas para vender nas lojas de discos brasileiras (também elas se tornando cada dia mais raras), ainda era comum achá-las no comércio de Buenos Aires e Montevidéu. Nas nossas viagens às duas capitais, compramos algumas coisas bem interessantes, como estas da foto.


Não dá para falar em fita cassete sem lembrar de uma verdadeira maravilha tecnológica dos anos 1980: o walkman, como esse aí da foto (só uma ilustração, pois não pertencia a nenhum dos dois, os nossos se perderam no tempo).


Com ele, se escutavam as fitas em qualquer lugar: caminhando na rua, andando de ônibus, estudando... Igualzinho aos players e celulares de hoje. Ou quase: o walkman era "um pouco" maior e mais pesado. Pular de uma música para outra era uma operação lenta e incerta, apertando na tecla Forward, soltando para ver em que ponto estava, apertando de novo, soltando, acionando o Review se tinha passado do ponto... Ah! E para usar o aparelhinho durante algumas horas, era indispensável estar precavido com um bom estoque de pilhas.
Mas a gente se divertia!

sábado, 8 de agosto de 2015

Atrás da porta, a Coleção Vampiro

Elisa Kopplin Ferraretto

De uma estante encaixada num vão atrás da porta da biblioteca, Maigret, Poirot, Nero Wolfe, Ellery Queen, Perry Mason, O Santo e tantos outros ícones da literatura policial espreitam e convidam para a aventura da leitura. Eles povoam as páginas dos meus duzentos e poucos exemplares da Coleção Vampiro, garimpados ao longo dos anos nos sebos de Porto Alegre e de todas as cidades por onde passei.


Um dia, de uma viagem a Recife, o Luiz me trouxe da Brandão um exemplar velhinho, que tinha comprado por ser uma história com o detetive Hercules Poirot, de Agatha Christie, de quem eu gosto muito. Faceira como criança com brinquedo novo, peguei o livrinho, examinei-o e não acreditei: sem se dar conta, o Luiz tinha me presenteado com o número 1 da coleção!




Foi com "Poirot desvenda o passado" (nas traduções brasileiras, mais conhecido como "Os cinco porquinhos") que a Editora Livros do Brasil, de Portugal, lançou a Vampiro, em 1947, passando a entregar uma nova aventura policial a cada mês. A coleção segue existindo e, embora já não tenha o mesmo impacto nem a mesma vendagem, ainda faz a alegria de alguns leitores e de muitos colecionadores, tanto em Portugal quanto no Brasil. O formato de bolso, o preço baixo, as capas com belas ilustrações coloridas - em especial as de Cândido da Costa Pinto - e a seleção primorosa das estórias (com destaque para os detetives ou policiais com narrativas em série, como os que citei antes) foram alguns dos motivos de sucesso.



No YouTube, localizei esta reportagem de 2006 levada ao ar pela SIC, um dos canais da televisão portuguesa, e que conta um pouco da história da Vampiro.


Além do conteúdo e do visual, outra delícia de ler estes livrinhos está na linguagem. Como as edições são portuguesas, a gente sempre encontra uma expressão divertida. O inspetor Teal, antagonista do Santo, masca pastilhas elásticas (chicletes). Um personagem, não lembro de qual estória, veste um fato macaco (macacão), outro enverga seu fato (terno) e um terceiro carrega um chapéu de chuva (guarda-chuva).

Sempre que pego um novo livro velho, antes de começar a ler a estória tenho a mania de sentir o cheiro e a textura do papel. Também gosto de olhar a capa, a contracapa, a folha de rosto, os anúncios..... A Vampiro antigamente trazia na contracapa, e mais tarde nas últimas páginas internas, o resumo do próximo volume, atiçando a curiosidade do leitor para o mês seguinte.


 
A partir de um determinado momento, os volumes passaram a trazer na folha de rosto uma curiosa Advertência ao Leitor, alertando para o perigo à saúde causado pelo manuseio de livros usados.



Os editores não imaginavam que, quase 70 anos depois, aqueles mesmos exemplares continuariam sendo folheados por pessoas que consideram estes pequenos livrinhos um verdadeiro tesouro. Como eu, que espero conseguir, algum dia, completar os primeiros cem volumes da minha coleção – faltam 22!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Almanaque de Superman de 1974, da EBAL

Luiz Artur Ferraretto

É um dos meus gibis favoritos, não só por eu sempre ter sido fã do Super-Homem, o de sempre e anterior à última e desastrosa de suas reencarnações. Na época, a Editora Brasil-América ocupava o primeiro lugar disparado na preferência dos fãs de quadrinhos com suas revistas ainda em formato americano, mas predominantemente em preto e branco. Coisas daqueles tempos, talvez de maior respeito com o idioma falado por aqui, a Ebal grafava o nome do personagem em português dentro das revistas, embora mantivesse, na denominação de suas publicações, por vezes, a expressão original em inglês. Um ou dois anos após a sua publicação, comprei esse "Almanaque de Superman para 1974" usado, aliás, diga-se de passagem, muito usado. Só, décadas depois, consegui ter uma ideia da exuberância, para os padrões de então, da sua capa. Foi graças ao trabalho do pessoal do Guia Ebal , iniciativa que pretende escanear todo o acervo da editora e disponibilizá-lo na internet. Se você ficar curioso a respeito desse gibi e quiser lê-lo, dê uma passada por lá.



Na capa do meu exemplar, além de nomes de proprietários anteriores, há duas outras marcas que me fazem voltar àquela época e a Rio Grande: a do preço que paguei dois cruzeiros , escrito a caneta pelo Seu Walter, dono do Bazar Glória, situado ao lado do cinema de mesmo nome; e o carimbo do Padilha, outro tradicional ponto de venda de jornais e revistas, por onde a revista deve ter passado primeiro.


O texto preparado para o editor e publicado na página 2 dá bem o clima da revista. Estes almanaques anuais eram esperadíssimos pelos leitores da época. A Ebal vivia um momento especial com a publicação de uma série de álbuns em capa cartonada e trazendo personagens clássicos dos anos 1930 como Flash Gordon e o Príncipe Valente.


A revista em si é, basicamente, pura ficção científica, com cinco estórias distribuídas nas suas cem páginas e protagonizadas pelo primeiro dos grandes super-heróis: "A vida do Super-Homem em Krypton", "Super-Homem volta a Krypton", "A história do Super-Homem", "O primeiro super-homem de Krypton" e "No País do Super-Homem".
 
 
 
 

As estórias, todas dos anos 1950 e talvez do início dos 1960, tinham certo grau de ingenuidade esperançosa, parecendo apostar no melhor do ser humano e associando progresso ao conhecimento e à tecnologia. São da época do flerte discreto entre a repórter Miriam Lane e o Super-Homem, que deixava entrever certo romantismo idealizado. Sim. Por medo de que o substantivo próprio feminino Lois fosse confundido com o masculino Louis, os editores da empresa de Adolfo Aizen há anos trocavam o nome da repórter e namorada de Super-Homem para Miriam.

A vida do Super-Homem em Krypton


Na aventura que abre o almanaque, Batman e Robin sugerem que o supercérebro da Fortaleza da Solidão, o refúgio do Super-Homem no Ártico, seja alimentado com fotografias de Krypton tiradas alcançando os raios de luz que deixavam o planeta antes de sua explosão. Assim, o computador mostra como teria sido a vida de Kal-El se Krypton jamais tivesse explodido. Há um personagem, Futurus, que se transforma no principal herói kryptoniano, Miriam Lane dá as caras no planeta e acaba casando-se com ele e retornando para a Terra. Kal-El, por sua vez, ganha poderes semelhantes aos de Futurus e assume a identidade de Super-Homem em Krypton.






Super-Homem volta a Krypton

A segunda aventura não se enquadra, como a anterior, no que era considerado, tanto pelos editores nos Estados Unidos quanto no Brasil, como uma "história imaginária", ou seja, algo fora da cronologia do personagem, embora esta fosse bem flexível até os anos 1970. Aqui, vale um pequeno esclarecimento: como aparece explicado em alguns gibis, a Ebal adotava sempre o vocábulo "história", independentemente de narrativa ficcional ou não, por considerar "estória" um estrangerismo oriundo do inglês "story". Na narrativa, Super-Homem volta no tempo, chega a Krypton, conhece seus pais Jor-El e Lara Lor-Van, envolve-se com uma atriz de cinema e por pouco não morre quando o planeta explode. Os pais do Super-Homem chegam mesmo a ter uma reação apresentada como instintiva em relação àquele estranho que, sem ser parente dos El, apresenta-se com o nome Kal-El, logo sugerido por Lara para batizar o filho.






A história do Super-Homem

Já esta HQ traz a versão tida dos anos 1950 até então como a origem do Super-Homem: da destruição de Krypton à chegada à Terra, onde é encontrado pelo casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent, que criam o bebê alienígena, rebatizado de Clark, e dão a ele uma formação bem "American way of life". Apresenta ainda a adolescência do herói em Pequenópolis, denominação adotada na época para a cidade de Smallville. Mostra o surgimento de Superboy, a morte de Jonathan e Martha, a transferência do Super-Homem para Metrópolis e o início de carreira de Clark Kent como repórter do Planeta Diário.




O primeiro super-homem de Krypton

Divertida estória em que o Super-Homem descobre, no espaço, destroços do planeta Krypton. Coincidência das coincidências, entre o material, encontram-se os restos do laboratório de Jor-El e, perfeitamente preservados, um diário e um filme, narrando experiências a respeito do comportamento da fisiologia kryptoniana na gravidade da Terra. Daí, a ideia de que Jor-El, com poderes graças à simulação, tenha sido o "primeiro super-homem de Krypton", título da HQ.


Na narrativa, que, como a anterior, é mais curta do que as duas iniciais da edição, há dois quadrinhos inesquecíveis para mim. Um deles é o em que um garoto de três anos não sabe resolver uma "simples equação atômica". Lembro com muita frequência desta ideia comum nos quadrinhos e na ficção científica de que os jovens seriam, com a evolução do conhecimento e da tecnologia, intelectualmente capazes bem mais cedo. É o contrário da sociedade de hoje, na qual, não raro, a falta de maturidade de gente com 20 anos é vista como algo corriqueiro e normal. Outra imagem forte, apesar do preto e branco da edição brasileira, traz Jor-El trabalhando, tendo ao fundo a pirotecnia das comemorações dos 10 mil anos de Krypton.


No País do Super-Homem

Está última HQ do "Almanaque de Superman para 1974" é de uma chatice atroz. Tá bom. É um pouco de má vontade de minha parte. Acho um porre essa coisa de parque temático e o tal País do Super-Homem do título aparece como uma atração deste tipo em Metrópolis. Resumindo: Lex Luthor, o arqui-inimigo do Super-Homem, tenta matá-lo, usando kryptonita, o herói salva-se e prende o vilão.


Anúncios e outras curiosidades

Para os saudosistas, como eu, e para os que desconhecem esta parte da história dos gibis no Brasil, vale lembrar algumas particularidades da Ebal e de suas publicações. Empresa que lançou a maioria dos principais personagens de quadrinhos do país talvez, a exceção sejam os criados por Mauricio de Sousa , a editora pertencente a Adolfo Aizen ainda via, no início dos anos 1970, suas publicações como algo mais infantojuvenil. Daí, inserir uma série de anúncios de rodapé, um terço de página e página inteira de livrinhos para crianças, além de algumas estórias humorísticas curtas. Estas últimas, sempre achei de uma total falta de graça.




 

A indicar uma mudança necessária, mas que a Ebal não soube acompanhar, a contracapa traz o anúncio do almanaque em cores do Homem-Aranha, da Marvel, linha de quadrinhos que, logo, teria a publicação suspensa pela editora. No verso, na penúltima página, a contrastar, como em edições especiais semelhantes publicadas nas décadas de 1930 e 1940, o "Almanaque de Superman para 1974" apresenta um singelo calendário.