Luiz Artur Ferraretto
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domingo, 7 de fevereiro de 2016
Saudades do Tangos e Tragédias
Elisa Kopplin Ferraretto
Luiz Artur Ferraretto
Era quase automático: no fim de dezembro ou início de janeiro, sempre que possível, já íamos nos agendando. E comprávamos os ingressos para a temporada anual de Tangos e Tragédias no Theatro São Pedro. Sempre para a quinta ou sexta fila, evitando um "chamamento voluntário" ao palco para dançar o Copérnico. Não que seja lá uma performance difícil: "Cê não pode mexer com as pernas. Cê não pode mexer com as mãos.". Parecia que era eterno, mas algo a sempre surpreender os vivos levou o Maestro Pletskaya em 7 de fevereiro de 2014, deixando tanto seu parceiro, Klaunus Sank, quanto nós, por aqui, bem longe do paraíso dos artistas da Sbórnia. Coisas da vida. No entanto, tão vão sair da memória aquelas noites, quando o espetáculo terminava em frente ao teatro, na Praça da Matriz, com Nico Nicolaiewsky e Hique Gomes regendo os maiores "bahs" do mundo.
Dias depois da morte de Nico Nicolaiewsky, o jornal Zero Hora publicou este artigo, assinado por um de nós, mas que expressa o sentimento de ambos. De fato, nós achamos que se trata da saudade de milhares de fãs.
Luiz Artur Ferraretto
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sábado, 14 de novembro de 2015
Um hino para nunca esquecer a luta contra os tiranos
Elisa Kopplin Ferraretto
Luiz Artur Ferraretto
Não há hino mais emblemático da luta pela igualdade, fraternidade e liberdade. Seja em 1789, 1941 ou 2015. Ontem e hoje, a França e La Marseillaise estão no imaginário da revolta contra a tirania. Na queda da Bastilha ou até nas ruas de Argel, com árabes conquistando na marra a sua liberdade contra a própria França. É um canto que se levanta contra um ato fascista em um boteco classudo em Casablanca ou na saída do Stade de France. Nós não somos o Charlie Hebdo ou a França. Nós somos o que este hino representa. Contra o terrorismo e a favor das esperanças no melhor que o ser humano possa gerar.
Para que cantemos juntos com o povo francês ou com qualquer povo que aspire por "igualdade, fraternidade e liberdade".
Luiz Artur Ferraretto
Não há hino mais emblemático da luta pela igualdade, fraternidade e liberdade. Seja em 1789, 1941 ou 2015. Ontem e hoje, a França e La Marseillaise estão no imaginário da revolta contra a tirania. Na queda da Bastilha ou até nas ruas de Argel, com árabes conquistando na marra a sua liberdade contra a própria França. É um canto que se levanta contra um ato fascista em um boteco classudo em Casablanca ou na saída do Stade de France. Nós não somos o Charlie Hebdo ou a França. Nós somos o que este hino representa. Contra o terrorismo e a favor das esperanças no melhor que o ser humano possa gerar.
"Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
L'étendard sanglant est levé
Entendez vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats
Ils viennent jusque dans vos bras
Egorger vos fils, vos compagnes
Aux armes citoyens!
Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons
Amour sacré de la Patrie
Conduis, soutiens nos bras vengeurs!
Liberté, Liberté chérie!
Combats avec tes défenseurs
Combats avec tes défenseurs
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents
Que tes ennemis expirant
Voient ton triomphe et notre gloire!
Aux armes citoyens!
Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons
Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n'y seront plus
Nous y trouverons leur poussière
Et les traces de leurs vertus
Et les traces de leurs vertus
Bien moins jaloux de leur survivre
Que de partager leur cercueil
Nous aurons le sublime orgueil
De les venger ou de les suivre!
Aux armes citoyens!
Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons"Nossa homenagem às vítimas de uma sexta-feira que não irá deixar saudades.
domingo, 8 de novembro de 2015
Ruben Val, tango e parrilla no Mercado del Puerto, de Porto Alegre
Luiz Artur Ferraretto
A ideia era reproduzir o ambiente do Mercado del Puerto, de Montevidéu, em Porto Alegre. E os proprietários, o pessoal da parrilla e a equipe de garçons conseguiam. De quebra, o uruguaio Rubén Val cantava tangos, acompanhado por uma base instrumental gravada. Do prédio às margens do Rio da Prata, na capital do Uruguai, emprestava o nome. Ficava na Cairu com Benjamin Constant e, para a Elisa e eu, moradores de Canoas, era de fácil acesso. O Edson, que cuidava do estacionamento, correndo de um lado para o outro, sempre arrumava um lugarzinho para o nosso fusca ano 1975, azul marinho, e, mais tarde, para o Fiesta, vermelho Ferrari, primeiro zero quilômetro comprado por nós.
Os garçons, as garçonetes ou o dono tinham a sinceridade de dizer: "Hoje, não recomendo o assado" ou "Hoje, o assado está perfeito".
Fora as memórias, sobrou pouco do Mercado del Puerto, de vários salões, sufocado por obras intermináveis no entorno. Em um deles, uma noite, ouvimos a rainha do rádio gaúcho Maria Helena Andrade e o flautista Plauto Cruz. Um show. Anos depois, descobrimos que Rubén Val tinha sido figura mítica na Porto Alegre dos anos 1970 com suas casas noturnas de bons vinhos, tangos e comida a não decepcionar ninguém. Dele, guardei um "Top Cultura", programa gravado, em outubro de 1997, pelo Pedro Perurena, meu aluno na época e frequentador do Mercado del Puerto. É uma recordação também do antigo Telecentro da Universidade Luterana do Brasil e do circuito interno de televisão, que alimentávamos com a produção dos alunos da Oficina de TV ligada ao curso de Comunicação Social. Um trechinho, então, do Rubén Val cantando "Caminito":
Assistindo ao vídeo e olhando estas fotografias achadas na internet, dá até para sentir um gostinho dos "asados" e dos "postres" daqueles almoços, jantares e ceias.
A ideia era reproduzir o ambiente do Mercado del Puerto, de Montevidéu, em Porto Alegre. E os proprietários, o pessoal da parrilla e a equipe de garçons conseguiam. De quebra, o uruguaio Rubén Val cantava tangos, acompanhado por uma base instrumental gravada. Do prédio às margens do Rio da Prata, na capital do Uruguai, emprestava o nome. Ficava na Cairu com Benjamin Constant e, para a Elisa e eu, moradores de Canoas, era de fácil acesso. O Edson, que cuidava do estacionamento, correndo de um lado para o outro, sempre arrumava um lugarzinho para o nosso fusca ano 1975, azul marinho, e, mais tarde, para o Fiesta, vermelho Ferrari, primeiro zero quilômetro comprado por nós.
Os garçons, as garçonetes ou o dono tinham a sinceridade de dizer: "Hoje, não recomendo o assado" ou "Hoje, o assado está perfeito".
Fora as memórias, sobrou pouco do Mercado del Puerto, de vários salões, sufocado por obras intermináveis no entorno. Em um deles, uma noite, ouvimos a rainha do rádio gaúcho Maria Helena Andrade e o flautista Plauto Cruz. Um show. Anos depois, descobrimos que Rubén Val tinha sido figura mítica na Porto Alegre dos anos 1970 com suas casas noturnas de bons vinhos, tangos e comida a não decepcionar ninguém. Dele, guardei um "Top Cultura", programa gravado, em outubro de 1997, pelo Pedro Perurena, meu aluno na época e frequentador do Mercado del Puerto. É uma recordação também do antigo Telecentro da Universidade Luterana do Brasil e do circuito interno de televisão, que alimentávamos com a produção dos alunos da Oficina de TV ligada ao curso de Comunicação Social. Um trechinho, então, do Rubén Val cantando "Caminito":
Assistindo ao vídeo e olhando estas fotografias achadas na internet, dá até para sentir um gostinho dos "asados" e dos "postres" daqueles almoços, jantares e ceias.
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domingo, 25 de outubro de 2015
Depois da escola, uma criança na Grande Porto Alegre dos anos 70
Elisa Kopplin Ferraretto
Cheguei em casa, tirei o eslaque e a japona do uniforme do colégio. Choveu um pouco durante o dia e, como não fui de galocha, as congas estavam molhadas; então coloquei-as atrás da geladeira pra secar, pensando: "Não posso esquecer de, mais tarde, esfregar giz nelas, para ficarem branquinhas de novo".
Fui tomar banho e, como fazia frio, coloquei álcool em uma frigideira e taquei fogo pra aquecer o banheiro. Lavei meu cabelo com xampu Silhueta e passei bastante creme rinse Colorama, aquele do “vocês se lembram da minha voz?”. Junto com o sabonete Alma de Flores e o desodorante Cashmere Bouquet, que cheirinho bom!
Botei uma brim coringa, um pulôver e o guidis e fui assistir o "Sítio do Pica-pau Amarelo". Adoro essa história do anjinho que repete: "Quero voltar pro céu... Saudade!!!".
Depois, para aproveitar o solzinho que apareceu no final de tarde, fui para o pátio brincar um pouco. Estava com uma fominha, pena que não era época de amoras pra subir no pé e sair de lá com a barriga estourando e as mãos roxas. Mas ouvi um barulhinho... Tac-tac-tac... O homem da casquinha!!! "Mãe, posso comprar uma?" "Não, guria, daqui a pouco é hora da janta! Mas te faço uma batida de banana. Aliás, vai esperar o leiteiro".
Fui. A carroça estava mesmo chegando, o leiteiro despejou dois litros de leite de nossa jarra verde, que botei na geladeira. Dali a umas horas, uma camada de nata estaria formada por cima do leite, e todos os dias era tarefa minha retirá-la para mais tarde comermos no pão, com chimia de uva. A mãe deixou eu ficar com as moedas do troco, que coloquei no meu cofrinho da Fin-Hab. Estou juntando para comprar uma Suse noiva. Quem não quer ter uma???
As crianças da vizinhança foram aparecendo e brincamos de cabra-cega e polícia-ladrão. Uma guria preferia fita ou passar anel, mas os guris não toparam. Amanhã, prometeram, a gente brinca de ovo podre (“Tá fedendo!”).
À noite, depois de jantar e lavar a louça, assisti o “”Planeta dos Homens” com minha família. Múmia paralítica, o macaco tá certo, não me comprometa, não precisa explicar – eu só queria entender, tem pai que é cego, cala-te boca, amancebou-se... Que sarro eram aqueles bordões!!!
E depois era hora de criança dormir. Exceto nos sábados, quando me deixavam ver “Primeira Exibição”, “Sessão de Gala” e até “Sessão Coruja”!!!
Se você não reconheceu algumas palavras e marcas ou não entendeu situações narradas nesse textinho, não se preocupe. Talvez ele seja mesmo indecifrável para quem nem tinha nascido nos anos 1970. Mas quem teve sua infância nessa década certamente voltou um pouquinho no tempo.
sábado, 26 de setembro de 2015
Eternas matinês (1) - Jerry Lewis
Elisa Kopplin Ferraretto
Em um distante domingo à tarde, minha mãe me convidou para
assistirmos, na TV, a um filme com um ator de quem ela gostava muito. Foi assim
que, em meio a muitas risadas, conheci Jerry Lewis. Desde então, vi e revi
muitas vezes algumas das tantas histórias ternas e divertidas que ele estrelou,
principalmente aquelas que, nos anos 1970 e 1980, repetiam a
toda hora em alguma Sessão Comédia na TV.
Uma das cenas mais famosas está em “Errado pra
cachorro”: a da máquina de escrever invisível. Agitando as mãos no ar, Jerry Lewis imita os movimentos de quem está
batendo à máquina de escrever – datilografa, empurra o rolo de um lado para
outro, aciona a alavanca de mudança de
linha. Tudo isto, acompanhado de uma perfeita sonoplastia, cria a ilusão de que ali realmente existe uma
máquina.
Não dá para esquecer de Jerome Littlefield, o atrapalhado e hipocondríaco atendente de uma clínica em “O bagunceiro arrumadinho”. Uma das melhores cenas é aquela em que uma paciente vai exagerando seus problemas de saúde e Jerome começa a sentir todas as dores que
ela está descrevendo.
Mas
meu preferido é "Artistas e
modelos", em que o sonâmbulo Eugene
Fullstack sonha com as histórias de Vincent,
o Abutre.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Um robô pra chamar de meu (1)
Elisa Kopplin Ferraretto
Muita gente que foi
criança nos anos 1960 e 1970 alimentava um desejo secreto: ter um robô
como seu melhor amigo. Igualzinho ao Will Robinson da série "Perdidos no Espaço", com o
modelo B9, conhecido simplesmente como Robô. Inteligente, divertido, sensível
às vezes, sarcástico em outras, quase humano. Mas com uma força e um arsenal de
truques que nenhuma pessoa poderia oferecer.
Naquela época, a
gente fazia folia na rua sem medo de assaltante nem de traficante. Mas,
na nossa imaginação, sempre havia o risco de, enquanto se brincava de
roda, de pegar, de esconder, de passar anel, de fita
etc., surgir um alienígena horrendo, um monstro de oito
olhos, um gigante ou – horror dos horrores! – o Homem do Saco,
pronto a enfiar dentro daquele trapo sujo as crianças arteiras. Então,
ah, se a gente tivesse um robô para nos proteger!!! Ele avisaria:
"Perigo, perigo", de suas "mãos" sairiam raios e nós,
ilesos, ficaríamos cheios de orgulho por termos um amigo tão especial... Sonho nunca concretizado, mas sempre lembrado pela miniatura que
nos espia das estantes...
O Robô foi criado por
Robert Kinoshita. Anos antes, de sua imaginação também saíra o
Robby, do filme Planeta Proibido. Na foto, o velhinho (que morreu
em janeiro deste ano, aos 100 anos) com nossos dois amigos inesquecíveis.
Faz um tempo enorme que não sou mais criança, mas, como não se
confirmaram as previsões do passado, de que no longínquo ano 2000 todos
teriam seu robô pessoal, eu sigo sonhando com o meu. Afinal, amigos de
verdade são cada vez mais raros, e uma proteção extra nestes
tempos difíceis viria bem. Pena que o medo de hoje não seja mais
imaginário, não seja mais do alienígena esquisito, do monstro de mentirinha, do Homem do Saco...
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Toca Raul! Alguns vídeos sobre o Maluco Beleza
Luiz Artur Ferraretto
A qualquer momento em algum bar, alguém vai pedir: "Toca Raul!". Aqui em casa, é ligar o aparelho de som e sempre há um momento para o Maluco Beleza. Como áudio não existe sem vídeo, aproveitamos para rever alguns DVDs produzidos por fã-clubes do Raul com clipes. Respeitosamente, em agosto de cada ano, próximo ao dia em que o maior roqueiro da história do Brasil subiu para outro firmamento, assistimos a estes trechos de telejornais gravados em velhas fitas VHS que, com o tempo, fomos digitalizando. Do dia 21 de agosto, as reportagens dos programas "Cidade 5", do SBT de Porto Alegre; "TJ Brasil", do SBT em rede nacional; e do "Jornal Nacional", da Globo.
Do dia seguinte ao falecimento do Raul, a cobertura do "Jornal da Band" e do "Jornal Nacional".
E uma observação importante: não pretendemos, com a divulgação destes vídeos, todos gravados há duas décadas, desrespeitar direitos autorais. Estão aqui apenas como uma homenagem a Raul Seixas e a todos nós, os seus fãs.
A qualquer momento em algum bar, alguém vai pedir: "Toca Raul!". Aqui em casa, é ligar o aparelho de som e sempre há um momento para o Maluco Beleza. Como áudio não existe sem vídeo, aproveitamos para rever alguns DVDs produzidos por fã-clubes do Raul com clipes. Respeitosamente, em agosto de cada ano, próximo ao dia em que o maior roqueiro da história do Brasil subiu para outro firmamento, assistimos a estes trechos de telejornais gravados em velhas fitas VHS que, com o tempo, fomos digitalizando. Do dia 21 de agosto, as reportagens dos programas "Cidade 5", do SBT de Porto Alegre; "TJ Brasil", do SBT em rede nacional; e do "Jornal Nacional", da Globo.
E uma observação importante: não pretendemos, com a divulgação destes vídeos, todos gravados há duas décadas, desrespeitar direitos autorais. Estão aqui apenas como uma homenagem a Raul Seixas e a todos nós, os seus fãs.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Compactos: em pouco espaço, muitas lembranças
Elisa Kopplin Ferraretto
E tinha, claro, principalmente, a música. Alguns compactos
traziam seleções das "mais mais" do momento, as mais tocadas no
rádio. Nacionais e internacionais.
Nos festivais de MPB, a gente podia contar que iam sair compactos com as principais concorrentes.
Às vezes, o preço de um Long Play de vinil pesava muito no
orçamento. Em outras, o que a gente queria mesmo era ter apenas uma ou duas
canções extraídas do LP, aquelas que as rádios selecionavam como músicas de
trabalho e tocavam até a exaustão, mas sempre era bom exaurir um pouquinho
mais... Então se podia contar com os bons e velhos compactos, geralmente com
uma faixa de cada lado, no máximo duas. Não tinham os belos encartes com
letras que a gente encontrava nos LPs, e as capas na maioria das vezes eram
apenas um envelope "furado no meio". Mas como quebravam o galho!
Esta caixinha guarda os preciosos compactos que eu e o Luiz
amealhamos, separadamente, em nossas juventudes, e depois juntamos,
acrescentando mais umas coisinhas que compramos, juntos, em sebões ou no Brique
da Redenção.
O que tem aí dentro? De tudo um pouco. A começar pelos
infantis. A coleção Disquinho, que trazia maravilhosas narrações dos desenhos e
filmes da Disney. As divertidas canções do palhaço Carequinha. Ou o meu
inesquecível "A formiguinha e a neve", que não sei como não gastou,
de tanto que o ouvi. O que me interessava não era a moral religiosa do final,
quando "Deus, que houve todas as preces" salvava a pobre formiguinha
que tivera um pé soterrado na neve, mas sim o jogo de palavras e de memória até
chegar lá. A protagonista ia pedindo ajuda, sucessivamente, a diferentes
personagens. Primeiro ao Sol: "Ó Sol, tu que és tão forte, derrete a neve
que prende o meu pezinho", mas cada um respondia que havia alguém mais
forte que ele. O Sol, por exemplo: "Mais forte do que eu é o muro que me tapa". E então a formiguinha ia repetindo, somando toda a ladainha: "Ó homem, tu que és tão forte, que bates no cão que persegue
o gato que come o rato que rói o muro que tapa o sol que derrete a neve,
desprende meu pezinho... ". Ou algo assim, pois escrevo de memória; não
quero correr o risco de ouvir o disquinho e, aos 47 anos, chorar (mais uma vez)
pela sorte da pobre formiguinha...
Também tinha curiosidades como essas aí de cima: o compacto do filme "Um dia de sol", reprisadíssimo na Sessão da Tarde da então TV Gaúcha, e o de um grupo
que nunca existiu. O tal The Paris Group era fake, mas a música "Grafitti",
apresentada em um comercial de TV da Levis, fez tanto sucesso que se inventou
um conjunto para lançar o disco. Bah, e a música (e o comercial também) era linda, mesmo.
Nos festivais de MPB, a gente podia contar que iam sair compactos com as principais concorrentes.
Bom... e me desculpem os puristas, mas a gente ouvia de
tudo. E assistia ao Chacrinha na TV. Então gostava de ouvir estes "sucessos".
Nossa coleção tem coisas de mais qualidade, também, como
esse compacto raro do Geraldo Vandré, com "Pra não dizer que não falei de flores", que temos em duas capas diferentes (meio enjambradas)...
...ou estes do semanário "O Pasquim"...
...ou da peça de teatro "Bailei na curva".
E quase esquecia – "Toca Raul" – do compacto da novela "O Rebu", trilha sonora do Maluco Beleza e do mago Paulo Coelho.
...ou da peça de teatro "Bailei na curva".
Talvez um dos primeiros compactos que ouvi, ainda bem
criança, tenha sido um destes do mexicano Pedro Infante, que pertencia aos meus
pais. Os outros três comprei já quando adulta, porque, confesso: adoro música
mexicana. Quanto mais aiaiaiaiai, melhor.
E onde eu ouvia esses compactos? Na maior parte do tempo,
foi na minha velha eletrola amarela Philips, cuja tampa era a caixa de som,
mono, é claro. Segue comigo até hoje. E a do Luiz, só que vermelha, também está
conosco. Ambas funcionam perfeitamente, obrigada.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Na "Folha da Criança", o meu primeiro "trabalho" publicado em jornal
Luiz Artur Ferraretto
Pela qualidade da minha primeira incursão no jornalismo, pode-se dizer que o meu futuro na profissão seria algo, na melhor das hipóteses, próximo do zero. Em contrapartida, ninguém deve reclamar da precocidade de minha tentativa. De fato, a culpa é toda do Dena, meu irmão, incentivador dos dois desenhos garatujados em meados de 1970, quando eu nem completara ainda cinco anos. Na época, todo sábado, a "Folha da Manhã", o jornal lido lá em casa, publicava um suplemento infantil. Na edição da "Folha da Criança" de 1º de agosto de 1970, portanto, estavam lá as minhas artes com uma ajudinha do Dena, que acrescentou meu nome e teve a inteligência de identificar cada uma das imagens incluídas nos desenhos.
Pela qualidade da minha primeira incursão no jornalismo, pode-se dizer que o meu futuro na profissão seria algo, na melhor das hipóteses, próximo do zero. Em contrapartida, ninguém deve reclamar da precocidade de minha tentativa. De fato, a culpa é toda do Dena, meu irmão, incentivador dos dois desenhos garatujados em meados de 1970, quando eu nem completara ainda cinco anos. Na época, todo sábado, a "Folha da Manhã", o jornal lido lá em casa, publicava um suplemento infantil. Na edição da "Folha da Criança" de 1º de agosto de 1970, portanto, estavam lá as minhas artes com uma ajudinha do Dena, que acrescentou meu nome e teve a inteligência de identificar cada uma das imagens incluídas nos desenhos.
Pelo jeito, ele e eu gostamos da brincadeira. Assim, logo em seguida, cometi mais um desenho, que saiu em 1º de janeiro de 1971. Pensando bem, o meu trauma em relação às qualidades desta terceira obra de arte, reiterando a falta de potencial das anteriores, talvez esteja na origem do meu futuro desinteresse pelo jornalismo impresso.
Brincadeiras à parte, a "Folha da Criança", coordenada por Nize Puchalski Teixeira, marcaria o imaginário dos meninos e meninas dos anos 1970. Muito tempo depois, eu descobriria que a minha namorada também tivera uma experiência semelhante. Pois a Elisa enviava para a Tia Nize estorinhas, desenhos e poesias. Segundo ela, "de tanto encher o saco da coitada", um dia recebeu este livrinho aí da foto. A dedicatória diz tudo sobre a importância da "Folha da Criança" e de sua equipe para a gente.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
O mundo cabia em uma fita cassete
Elisa Kopplin Ferraretto
Hoje a gente carrega centenas de músicas em um pen drive ou no celular. Mas houve um tempo em que a mídia mais portátil e prática que existia era a fita cassete.
A gente podia comprar as das gravadoras, oficiais. Dava para ter toda uma discografia dos artistas preferidos adquirindo as fitas "seladas", oficiais das gravadoras, que eram lançadas paralelamente aos LPs.
Mas bom mesmo era personalizar, ter fitas que ninguém tinha.
Um jeito era gravar do rádio. Foi assim que eu e minha irmã Mônica montamos nossas primeiras fitas, quando ela ganhou um gravador e toca-fitas, acho que era National. O aparelho não existe mais, mas era bem parecido com este outro, do Luiz, que ele usou até não poder mais.
A gente ligava o rádio, de preferência na Continental, colocava o gravador perto dele e ficava esperando. Quando entrava uma música legal, era só apertar o botão vermelho do REC e o do Play e ficar bem quietinha enquanto a música era gravada. Não podia tossir, espirrar ou se mexer muito na cadeira, porque todo ruído saía na gravação. Se o cachorro latisse o pátio, então, a música estava arruinada. E às vezes quem estragava tudo era o locutor, que dava o prefixo bem no meio da canção.
Também era muito divertido gravar a voz da gente. Valia tudo: contar piadas, cantar, inventar uma radionovela e, principalmente, falar muita bobagem para depois morrer de rir escutando.
Só não valia se enganar na hora de reproduzir e apertar, sem querer, junto com o Play, o tal botão vermelho, aí desgravava tudo.
A Mônica ganhou o gravador lá nos anos 1970, e foi uma revolução nas nossas criações e brincadeiras. Mas só em meados dos anos 1980 tive acesso a uma maneira muito mais "moderna" de gravar fitas com seleções musicais. Eu estava na faculdade de Jornalismo e, além do emprego fixo, fazia uns bicos como revisora de livros para várias editoras. Entreguei um trabalho grande, ganhei um troco legal (pelo menos para os meus parâmetros de então) e fui correndo para os classificados do jornal, onde achei meu sonho de consumo, que adquiri em seguida: um 3 em 1 usado.
Foi uma festa! Além de escutar rádio, discos e fitas, podia criar meus próprios cassetes com muito mais qualidade. Nos LPs e compactos simples, selecionava as canções de que mais gostava e gravava as fitas sem nenhuma interferência de ruídos do ambiente (os vira-latas lá fora já podiam latir à vontade).
Depois, identificava tudo numa capinha feita a mão e pronto - tinha um cassete exclusivo!
Quando comecei a namorar o Luiz, em 1989, descobri que minhas capas eram simplórias. Olhem como eram as dele!!!
Nos anos 1990, quando já era difícil encontrar fitas para vender nas lojas de discos brasileiras (também elas se tornando cada dia mais raras), ainda era comum achá-las no comércio de Buenos Aires e Montevidéu. Nas nossas viagens às duas capitais, compramos algumas coisas bem interessantes, como estas da foto.
Não dá para falar em fita cassete sem lembrar de uma verdadeira maravilha tecnológica dos anos 1980: o walkman, como esse aí da foto (só uma ilustração, pois não pertencia a nenhum dos dois, os nossos se perderam no tempo).
Com ele, se escutavam as fitas em qualquer lugar: caminhando na rua, andando de ônibus, estudando... Igualzinho aos players e celulares de hoje. Ou quase: o walkman era "um pouco" maior e mais pesado. Pular de uma música para outra era uma operação lenta e incerta, apertando na tecla Forward, soltando para ver em que ponto estava, apertando de novo, soltando, acionando o Review se tinha passado do ponto... Ah! E para usar o aparelhinho durante algumas horas, era indispensável estar precavido com um bom estoque de pilhas.
Mas a gente se divertia!
Hoje a gente carrega centenas de músicas em um pen drive ou no celular. Mas houve um tempo em que a mídia mais portátil e prática que existia era a fita cassete.
Um jeito era gravar do rádio. Foi assim que eu e minha irmã Mônica montamos nossas primeiras fitas, quando ela ganhou um gravador e toca-fitas, acho que era National. O aparelho não existe mais, mas era bem parecido com este outro, do Luiz, que ele usou até não poder mais.
Também era muito divertido gravar a voz da gente. Valia tudo: contar piadas, cantar, inventar uma radionovela e, principalmente, falar muita bobagem para depois morrer de rir escutando.
Só não valia se enganar na hora de reproduzir e apertar, sem querer, junto com o Play, o tal botão vermelho, aí desgravava tudo.
A Mônica ganhou o gravador lá nos anos 1970, e foi uma revolução nas nossas criações e brincadeiras. Mas só em meados dos anos 1980 tive acesso a uma maneira muito mais "moderna" de gravar fitas com seleções musicais. Eu estava na faculdade de Jornalismo e, além do emprego fixo, fazia uns bicos como revisora de livros para várias editoras. Entreguei um trabalho grande, ganhei um troco legal (pelo menos para os meus parâmetros de então) e fui correndo para os classificados do jornal, onde achei meu sonho de consumo, que adquiri em seguida: um 3 em 1 usado.
Depois, identificava tudo numa capinha feita a mão e pronto - tinha um cassete exclusivo!
Quando comecei a namorar o Luiz, em 1989, descobri que minhas capas eram simplórias. Olhem como eram as dele!!!
Nos anos 1990, quando já era difícil encontrar fitas para vender nas lojas de discos brasileiras (também elas se tornando cada dia mais raras), ainda era comum achá-las no comércio de Buenos Aires e Montevidéu. Nas nossas viagens às duas capitais, compramos algumas coisas bem interessantes, como estas da foto.
Não dá para falar em fita cassete sem lembrar de uma verdadeira maravilha tecnológica dos anos 1980: o walkman, como esse aí da foto (só uma ilustração, pois não pertencia a nenhum dos dois, os nossos se perderam no tempo).
Mas a gente se divertia!
sábado, 8 de agosto de 2015
Atrás da porta, a Coleção Vampiro
Elisa Kopplin Ferraretto
De uma estante encaixada num vão atrás da porta da biblioteca, Maigret, Poirot, Nero Wolfe, Ellery Queen, Perry Mason, O Santo e tantos outros ícones da literatura policial espreitam e convidam para a aventura da leitura. Eles povoam as páginas dos meus duzentos e poucos exemplares da Coleção Vampiro, garimpados ao longo dos anos nos sebos de Porto Alegre e de todas as cidades por onde passei.
Foi com "Poirot desvenda o passado" (nas traduções brasileiras, mais conhecido como "Os cinco porquinhos") que a Editora Livros do Brasil, de Portugal, lançou a Vampiro, em 1947, passando a entregar uma nova aventura policial a cada mês. A coleção segue existindo e, embora já não tenha o mesmo impacto nem a mesma vendagem, ainda faz a alegria de alguns leitores e de muitos colecionadores, tanto em Portugal quanto no Brasil. O formato de bolso, o preço baixo, as capas com belas ilustrações coloridas - em especial as de Cândido da Costa Pinto - e a seleção primorosa das estórias (com destaque para os detetives ou policiais com narrativas em série, como os que citei antes) foram alguns dos motivos de sucesso.
De uma estante encaixada num vão atrás da porta da biblioteca, Maigret, Poirot, Nero Wolfe, Ellery Queen, Perry Mason, O Santo e tantos outros ícones da literatura policial espreitam e convidam para a aventura da leitura. Eles povoam as páginas dos meus duzentos e poucos exemplares da Coleção Vampiro, garimpados ao longo dos anos nos sebos de Porto Alegre e de todas as cidades por onde passei.
Um dia, de uma viagem a Recife, o Luiz me trouxe da Brandão
um exemplar velhinho, que tinha comprado por ser uma história com o detetive
Hercules Poirot, de Agatha Christie, de quem eu gosto muito. Faceira como
criança com brinquedo novo, peguei o livrinho, examinei-o e não acreditei: sem
se dar conta, o Luiz tinha me presenteado com o número 1 da coleção!
Foi com "Poirot desvenda o passado" (nas traduções brasileiras, mais conhecido como "Os cinco porquinhos") que a Editora Livros do Brasil, de Portugal, lançou a Vampiro, em 1947, passando a entregar uma nova aventura policial a cada mês. A coleção segue existindo e, embora já não tenha o mesmo impacto nem a mesma vendagem, ainda faz a alegria de alguns leitores e de muitos colecionadores, tanto em Portugal quanto no Brasil. O formato de bolso, o preço baixo, as capas com belas ilustrações coloridas - em especial as de Cândido da Costa Pinto - e a seleção primorosa das estórias (com destaque para os detetives ou policiais com narrativas em série, como os que citei antes) foram alguns dos motivos de sucesso.
No YouTube, localizei esta reportagem de 2006 levada ao ar pela SIC, um dos canais da televisão portuguesa, e que conta um pouco da
história da Vampiro.
Além do conteúdo e do visual, outra delícia de ler estes
livrinhos está na linguagem. Como as edições são portuguesas, a gente sempre
encontra uma expressão divertida. O inspetor Teal, antagonista do Santo, masca
pastilhas elásticas (chicletes). Um personagem, não lembro de qual estória,
veste um fato macaco (macacão), outro enverga seu fato (terno) e um terceiro
carrega um chapéu de chuva (guarda-chuva).
Sempre que pego um novo livro velho, antes de começar a ler
a estória tenho a mania de sentir o cheiro e a textura do papel. Também gosto
de olhar a capa, a contracapa, a folha de rosto, os anúncios..... A Vampiro
antigamente trazia na contracapa, e mais tarde nas últimas páginas internas, o
resumo do próximo volume, atiçando a curiosidade do leitor para o mês seguinte.
A partir de um determinado momento, os volumes passaram a
trazer na folha de rosto uma curiosa Advertência ao Leitor, alertando para o
perigo à saúde causado pelo manuseio de livros usados.
Os editores não imaginavam que, quase 70 anos depois, aqueles mesmos exemplares continuariam sendo folheados por pessoas que consideram estes pequenos livrinhos um verdadeiro tesouro. Como eu, que espero conseguir, algum dia, completar os primeiros cem volumes da minha coleção – faltam 22!
Os editores não imaginavam que, quase 70 anos depois, aqueles mesmos exemplares continuariam sendo folheados por pessoas que consideram estes pequenos livrinhos um verdadeiro tesouro. Como eu, que espero conseguir, algum dia, completar os primeiros cem volumes da minha coleção – faltam 22!
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quinta-feira, 30 de julho de 2015
Em Quintana, a descoberta da poesia
Elisa Kopplin Ferraretto
A capa colada com fita adesiva denuncia, mais do que a idade do livro, o seu intenso manuseio. Foi em 1976 que ganhei a antologia "Poesias", de Mario Quintana, no qual a Editora Globo reuniu, em 1975, os livros "A Rua dos Cataventos", "Canções", "Sapato Florido", "Espelho Mágico" e "O Aprendiz de Feiticeiro". Não tenho certeza se o presente foi de minha mãe, Miriam Kopplin, ou de minha tia Jane Beatriz Haas, que me levou à Feira do Livro de Porto Alegre. Mas o certo é que foi minha porta de entrada no mundo da poesia.
Estas palavras me enfeitiçavam. Fantasmas, um peixinho a trote pelas calçadas, um homem de muitas mãos... Reli-as centenas de vezes, procurando, na minha ingenuidade infantil, compreender os segredos que os versos ao mesmo tempo escondiam e revelavam sobre a vida e a morte, a amizade e a solidão, o fim da juventude e a dificuldade de tomar decisões na idade adulta...
Descobri, assim, que poesia é magia. "Ser poeta é saber ver o mundo como o veem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas. [...] Quintana é também um mágico, só que suas mágicas são feitas com palavras", esclareceu o mago da prosa Erico Verissimo, no prefácio de outro livro de Mario Quintana, editado igualmente em 1975 pela Garatuja. "Pé de Pilão" foi escrito especialmente para crianças, com ilustrações de Edgar Koetz. Li e reli este delicioso livrinho até a exaustão, e ainda hoje lembro de cabeça os sonoros versos iniciais, que estão gravados também em um velho elepê (este comprado em um sebo já na idade adulta).
Desde 1994, quando Quintana se foi, é um dos fantasmas para quem adoro servir um chazinho de vez em quando.
A capa colada com fita adesiva denuncia, mais do que a idade do livro, o seu intenso manuseio. Foi em 1976 que ganhei a antologia "Poesias", de Mario Quintana, no qual a Editora Globo reuniu, em 1975, os livros "A Rua dos Cataventos", "Canções", "Sapato Florido", "Espelho Mágico" e "O Aprendiz de Feiticeiro". Não tenho certeza se o presente foi de minha mãe, Miriam Kopplin, ou de minha tia Jane Beatriz Haas, que me levou à Feira do Livro de Porto Alegre. Mas o certo é que foi minha porta de entrada no mundo da poesia.
Voltei a folhear a obra hoje, 30 de julho de 2015, data do 109° aniversário de nascimento do poeta, e reli os dois poemas que mais me impressionaram lá nos meus oito anos.
Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
Velha história
Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quentinho. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no "17"!... - o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando o peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial...
Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:
"Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...
"Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho nágua. E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado..
Estas palavras me enfeitiçavam. Fantasmas, um peixinho a trote pelas calçadas, um homem de muitas mãos... Reli-as centenas de vezes, procurando, na minha ingenuidade infantil, compreender os segredos que os versos ao mesmo tempo escondiam e revelavam sobre a vida e a morte, a amizade e a solidão, o fim da juventude e a dificuldade de tomar decisões na idade adulta...
Descobri, assim, que poesia é magia. "Ser poeta é saber ver o mundo como o veem os anjos, as fadas, e ao mesmo tempo possuir o dom de comunicar a quem lê o que ele vê e sente, em resumo, é ter olhos para revelar a face secreta das pessoas e das coisas. [...] Quintana é também um mágico, só que suas mágicas são feitas com palavras", esclareceu o mago da prosa Erico Verissimo, no prefácio de outro livro de Mario Quintana, editado igualmente em 1975 pela Garatuja. "Pé de Pilão" foi escrito especialmente para crianças, com ilustrações de Edgar Koetz. Li e reli este delicioso livrinho até a exaustão, e ainda hoje lembro de cabeça os sonoros versos iniciais, que estão gravados também em um velho elepê (este comprado em um sebo já na idade adulta).
Há uns anos, o Luiz apareceu com um áudio do programa "Discorama", da Guaíba, no dia do lançamento de "Pé de Pilão".
Desde 1994, quando Quintana se foi, é um dos fantasmas para quem adoro servir um chazinho de vez em quando.
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